quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

"Tenho dito"

Raramente o ouvi falar com a voz. O discurso dele faz-se com as cordas. Uma linguagem gestual diferente da que estamos habituados, daquelas que nos dão as notícias no "Bom Dia Portugal". Comprei os "Movimentos Prepétuos" de homenagem a Carlos Paredes. Daqueles discos que agarramos e encostamos a nós com força e olhamos para o lado. A ver se ninguém o vê, porque pode ser o último. "A mim já ninguém mo tira", pensei. Sobretudo, com o preço de cinco euros e noventa e nove. Fica que é uma delícia ali na minha estante, cada vez mais compostinha.

Ao ler o encarte apercebi-me de uma coisa. Tão natural, dirá a maioria. No texto do antropólogo Pedro Félix fiquei preso a uma frase: "(...)A sua vida, as suas opiniões, a sua música, corporalizam precisamente a libredade, mesmo quando esta era total ou parcialmente suprimida pela PIDE (...)". Pela PIDE? O que raio queriam esses gajos deste homem? É, não é? Não precisava de falar para ser contra o regime. Bastava aquela linguagem gestual dele. Aquele dedilhar de cordas, de subir e descer o braço da guitarra para incomdar, não era? Arrepiava, não era? Deixava-os a mexer-se na cadeira. Foram os melhores discursos que Portugal ouviu.

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